Alterações da glicose e tratamento do diabetes e do pré-diabetes
Uma glicemia acima do normal em um exame de rotina costuma gerar imediatamente uma pergunta: “Estou com diabetes?”
Nem sempre.
O resultado pode representar uma alteração transitória, pré-diabetes ou diabetes já estabelecido. Para diferenciar essas situações, precisamos considerar o valor encontrado, as condições em que o exame foi realizado, outros exames disponíveis e a presença ou não de sintomas.
O mesmo cuidado vale para o pré-diabetes. Receber esse diagnóstico não significa que a evolução para diabetes seja inevitável. Existe, justamente nessa fase, uma oportunidade importante de modificar a trajetória metabólica.
E, quando o diabetes já está presente, o acompanhamento também precisa ir muito além de baixar a glicose.
A hiperglicemia persistente pode, ao longo dos anos, afetar coração, vasos sanguíneos, rins, olhos e nervos. Por isso, considero mais útil pensar no tratamento desta forma: não estamos tratando apenas um número no exame. Estamos tentando reduzir o impacto da alteração glicêmica sobre a saúde presente e futura daquela pessoa. No pré-diabetes, isso significa principalmente reduzir o risco de progressão e cuidar dos demais fatores metabólicos.
No diabetes, significa controlar a glicemia com segurança enquanto protegemos coração, rins, olhos, sistema nervoso e qualidade de vida.
Quando uma glicose alta realmente significa diabetes?
A concentração de glicose no sangue não permanece constante durante o dia. Alimentação, exercício, sono, medicamentos, doenças agudas e diversas outras situações podem modificá-la.
É por isso que um único resultado precisa ser interpretado dentro do contexto.
Os exames mais utilizados para diagnosticar alterações glicêmicas são:
* glicemia de jejum;
* hemoglobina glicada (HbA1c);
* teste oral de tolerância à glicose em situações específicas;
* glicemia medida diante de sintomas típicos.
Quando não existem sintomas inequívocos de hiperglicemia, geralmente é necessário confirmar adequadamente um resultado alterado antes de estabelecer o diagnóstico.
Essa etapa é fundamental porque antecede qualquer discussão sobre tratamento.
Primeiro precisamos saber o que realmente está acontecendo
Quais valores são utilizados para diagnosticar pré-diabetes e diabetes?
Na glicemia de jejum, valores entre 100 e 125 mg/dL encontram-se na faixa de alteração da glicemia de jejum.
Uma glicemia de 126 mg/dL ou mais, quando adequadamente confirmada, pode estabelecer o diagnóstico de diabetes. Na hemoglobina glicada, utilizamos de maneira geral:
* abaixo de 5,7%: fora da faixa de pré-diabetes;
* entre 5,7% e 6,4%: faixa de pré-diabetes;
* 6,5% ou mais: compatível com diabetes quando os critérios diagnósticos são preenchidos.
O teste oral de tolerância à glicose possui critérios próprios, baseados na resposta após uma ingestão padronizada de glicose.
Esses limites são importantes, mas não substituem a interpretação clínica.
Existem situações nas quais a hemoglobina glicada pode não refletir adequadamente a glicemia. Quando HbA1c e glicose apresentam resultados discordantes, prefiro entender a razão da diferença em vez de simplesmente escolher um dos dois números.
Pré-diabetes: o que esse diagnóstico realmente significa?
Pré-diabetes indica que o metabolismo da glicose já se encontra alterado, mas ainda não foram preenchidos os critérios diagnósticos para diabetes.
Não considero adequado descrevê-lo apenas como um “diabetes leve”.
Também não significa que aquela pessoa inevitavelmente terá diabetes no futuro.
Existem pacientes que progridem, outros que permanecem durante anos nessa faixa e outros que retornam a valores abaixo dos critérios de pré-diabetes, principalmente quando conseguimos modificar fatores importantes de risco.
Por isso, diante de uma hemoglobina glicada de 5,8%, por exemplo, não me interessa apenas saber se daqui a alguns meses ela estará em 5,7% ou 5,9%.
A pergunta mais útil é: por que a glicose começou a subir e o que mais está acontecendo metabolicamente com essa pessoa?
Se não causa sintomas, por que o pré-diabetes merece atenção?
Porque pré-diabetes costuma ser silencioso.
Na maior parte das vezes, ele aparece em exames solicitados por outros motivos ou durante uma avaliação de rotina.
Além disso, frequentemente não aparece sozinho.
Podemos encontrar, no mesmo paciente:
* excesso de peso;
* aumento da circunferência abdominal;
* maior adiposidade visceral;
* triglicerídeos elevados;
* hipertensão;
* esteatose hepática;
* alterações do colesterol.
Nessa situação, discutir apenas alguns pontos a mais na glicemia perde boa parte da informação clínica.
O pré-diabetes pode funcionar como um sinal para avaliarmos o risco metabólico global.
Por que a glicose começa a aumentar?
No pré-diabetes e no diabetes tipo 2, frequentemente encontramos uma combinação de resistência à ação da insulina com perda progressiva da capacidade das células beta do pâncreas de compensar essa resistência.
Durante algum tempo, o organismo consegue produzir mais insulina e manter a glicemia relativamente controlada.
Em pessoas predispostas, essa compensação pode se tornar insuficiente com o passar dos anos.
Genética, idade, histórico familiar, sedentarismo e obesidade — particularmente a adiposidade visceral — podem contribuir para esse processo.
Isso não significa, entretanto, que diabetes tipo 2 seja uma doença exclusiva de pessoas com obesidade.
Pessoas sem obesidade também podem desenvolver pré-diabetes e diabetes.
Resistência à insulina, pré-diabetes e diabetes são a mesma coisa?
Não.
Resistência à insulina significa que alguns tecidos apresentam menor resposta à ação desse hormônio.
Em uma fase inicial, o pâncreas pode compensar produzindo mais insulina. A pessoa pode, portanto, apresentar resistência à insulina e ainda manter glicemias normais.
É por isso que procuro não transformar uma insulina isoladamente elevada ou um índice calculado a partir dela em uma doença que obrigatoriamente precisa receber medicamento.
Prefiro observar o conjunto:
* glicemia;
* hemoglobina glicada;
* circunferência abdominal;
* peso;
* triglicerídeos e colesterol;
* pressão arterial;
* presença de esteatose hepática;
* atividade física.
O objetivo não é normalizar indiscriminadamente tudo aquilo que conseguimos medir. É identificar alterações que realmente representem risco e possam se beneficiar de intervenção.
Todo pré-diabetes precisa ser tratado?
Pré-diabetes merece uma estratégia, mas isso não significa que todas as pessoas precisem receber medicamento.
Mudanças de estilo de vida constituem a principal intervenção para muitos pacientes.
Em situações de maior risco de progressão, também podemos considerar tratamento farmacológico.
A consulta, entretanto, não deveria terminar automaticamente com uma receita.
Existe uma oportunidade particularmente boa nessa fase para intervir sobre alimentação, atividade física, excesso de peso, gordura visceral, sono, tabagismo, pressão arterial, colesterol e triglicerídeos.
Por isso, o tratamento do pré-diabetes também deve ser entendido como prevenção do diabetes e prevenção cardiovascular
O que mudar na alimentação quando a glicose começa a subir?
Costumo considerar mais útil melhorar o padrão alimentar como um todo do que simplesmente orientar alguém a “cortar açúcar”.
Entre as medidas possíveis estão:
* aumentar o consumo de verduras e legumes;
* utilizar frutas em quantidades adequadas;
* aumentar a ingestão de fibras;
* priorizar alimentos minimamente processados;
* consumir fontes adequadas de proteína;
* escolher carboidratos de melhor qualidade nutricional;
* reduzir bebidas açucaradas;
* diminuir excesso de doces e carboidratos refinados;
* reduzir ultraprocessados;
* adequar a ingestão total de energia quando existe excesso de peso.
Pré-diabetes ou diabetes não significam que todos os alimentos contendo carboidratos precisam ser eliminados.
Uma estratégia nutricional precisa ser metabolicamente adequada, mas também precisa ser sustentável.
Qual é a importância do exercício para a glicose?
O músculo participa ativamente do metabolismo da glicose.
Durante a atividade física, aumenta a utilização de glicose pelo tecido muscular. Com treinamento regular, também ocorre melhora da sensibilidade à insulina.
Por isso, considero particularmente interessante combinaratividade aeróbica e treinamento de força. A musculação não entra apenas por uma questão estética.
Preservar ou aumentar força e função muscular tem importância metabólica e ganha relevância ainda maior durante processos de emagrecimento e com o avanço da idade.
É mais um motivo para não avaliar o resultado de um tratamento metabólico olhando apenas para a balança.
A perda de peso pode fazer o pré-diabetes desaparecer?
Em muitas pessoas com excesso de peso, a perda de peso pode melhorar a glicemia e a hemoglobina glicada a ponto de os valores deixarem de preencher os critérios de pré-diabetes.
A redução da adiposidade visceral costuma ser particularmente relevante.
Mesmo uma perda moderada pode trazer melhora de:
* sensibilidade à insulina;
* glicemia;
* pressão arterial;
* triglicerídeos;
* esteatose hepática;
* outros componentes do risco metabólico.
Não é necessário atingir um suposto “peso perfeito” para começar a obter benefício metabólico.
Mudanças importantes podem acontecer muito antes disso.
Existe tratamento medicamentoso para o pré-diabetes?
Em pacientes selecionados, sim.
A metformina pode ser considerada em algumas pessoas com maior risco de progressão para diabetes.
Quando obesidade e pré-diabetes coexistem, existe ainda outra possibilidade de raciocínio: tratar adequadamente a obesidade pode modificar de forma importante a trajetória metabólica e glicêmica.
Às vezes, portanto, a melhor estratégia não é simplesmente procurar um medicamento capaz de reduzir discretamente a glicemia.
É identificar e tratar
o contexto metabólico que está levando a glicose a aumentar
Em pacientes selecionados, isso pode incluir tratamento farmacológico da obesidade.
O que é diabetes mellitus?
Diabetes mellitus não representa uma única doença.
É um grupo de condições caracterizadas por hiperglicemia persistente causada por alterações na produção de insulina, na ação desse hormônio ou em ambas.
Entre as principais formas estão:
* diabetes tipo 1;
* diabetes tipo 2;
* diabetes gestacional;
* formas específicas ou secundárias relacionadas a doenças, medicamentos ou alterações genéticas.
Identificar corretamente o tipo de diabetes é importante porque as estratégias terapêuticas podem ser muito diferentes.
Diabetes tipo 1 e tipo 2: qual é a diferença?
No diabetes tipo 1, ocorre destruição autoimune das células beta do pâncreas, levando à deficiência de insulina.
A insulinoterapia é necessária.
Embora seja frequentemente associado à infância e à adolescência, o diabetes tipo 1 também pode surgir na vida adulta.
Já no diabetes tipo 2, existe uma combinação variável entre resistência à ação da insulina e redução progressiva da capacidade pancreática de produzir insulina em quantidade suficiente.
Obesidade e genética frequentemente participam desse processo, mas diabetes tipo 2 também pode ocorrer sem obesidade.
E nem todo diabetes que começa na idade adulta deve ser automaticamente classificado como tipo 2.
Quando a apresentação é atípica, exames adicionais podem ser necessários.
É possível o diabetes tipo 2 entrar em remissão?
Sim, em determinadas pessoas.
Perdas de peso significativas e sustentadas podem fazer com que a glicemia permaneça abaixo dos critérios de diabetes sem necessidade de medicamentos durante determinado período.
Chamamos essa situação de remissão e não necessariamente de cura.
A predisposição metabólica não desaparece.
Se houver recuperação de peso ou progressão da disfunção das células beta, a hiperglicemia pode retornar.
Por esse motivo, o acompanhamento continua sendo importante mesmo depois de uma remissão.
Diabetes sempre provoca sintomas?
Não.
Muitas pessoas com diabetes tipo 2 passam bastante tempo sem perceber qualquer sintoma.
Quando a glicose se eleva mais intensamente, podem aparecer:
* sede excessiva;
* aumento da frequência urinária;
* perda de peso sem intenção;
* visão borrada;
* cansaço;
* infecções recorrentes;
* dificuldade de cicatrização.
Sentir-se bem, portanto, não exclui diabetes.
Uma parcela importante dos diagnósticos acontece justamente em exames de rotina.
Quais complicações o diabetes pode causar?
Quando a exposição à hiperglicemia persiste durante muito tempo, diferentes tecidos e vasos sanguíneos podem ser afetados.
Isso aumenta o risco de:
* retinopatia;
* doença renal;
* neuropatia;
* doença cardiovascular;
* acidente vascular cerebral;
* doença arterial periférica;
* complicações nos pés.
O tratamento adequado pode reduzir substancialmente esses riscos.
E é exatamente por isso que considero insuficiente acompanhar apenas a glicemia.
A meta de hemoglobina glicada é sempre menor que 7%?
Não para todas as pessoas.
Uma HbA1c próxima ou abaixo de 7% é uma meta apropriada para muitos adultos com diabetes, mas o alvo deve ser individualizado.
Uma pessoa jovem, com diabetes recente e baixo risco de hipoglicemia, pode ter uma estratégia diferente de um paciente idoso, frágil, com várias doenças associadas e maior risco de hipoglicemia.
Em outras situações, metas mais rigorosas podem ser apropriadas quando podem ser atingidas com segurança.
O objetivo não é obter a menor HbA1c possível.
É alcançar controle glicêmico adequado com segurança e benefício clínico.
Como decidir qual medicamento utilizar no diabetes?
A forma de tratar diabetes tipo 2 mudou bastante nos últimos anos.
Antigamente, grande parte da discussão se concentrava em uma pergunta: qual medicamento reduz mais a glicose?
Hoje isso não basta.
Ao escolher uma terapia, considero também:
* doença cardiovascular;
* insuficiência cardíaca;
* doença renal;
* albuminúria;
* obesidade;
* risco de hipoglicemia;
* idade;
* função renal;
* efeitos adversos;
* preferência do paciente;
* custo e acesso.
Duas medicações podem produzir reduções semelhantes da HbA1c e, ainda assim, oferecer vantagens muito diferentes dependendo de quem está sendo tratado.
O tratamento moderno precisa integrar controle glicêmico, metabolismo, proteção cardiovascular e proteção renal.
A metformina continua tendo espaço?
Sim.
A metformina permanece amplamente utilizada no diabetes tipo 2.
Possui longa experiência de uso, boa eficácia, baixo risco de hipoglicemia quando utilizada isoladamente e custo relativamente baixo.
O que mudou foi a ideia de que necessariamente todo paciente precisa percorrer exatamente a mesma sequência de medicamentos.
Doença cardiovascular, doença renal, insuficiência cardíaca ou obesidade podem justificar a introdução precoce ou a priorização de outras classes.
A terapia deve ser escolhida de acordo com as características do paciente.
Onde entram os medicamentos baseados em incretinas?
Os medicamentos que atuam sobre as vias das incretinas modificaram significativamente o tratamento do diabetes tipo 2 e da obesidade.
Agonistas do receptor de GLP-1 e medicamentos com ação combinada sobre GIP e GLP-1 podem proporcionar:
* redução importante da glicemia;
* perda de peso;
* diminuição do apetite;
* melhora de diferentes parâmetros metabólicos.
Alguns medicamentos dessas classes também demonstraram benefícios cardiovasculares em populações específicas.
Efeitos gastrointestinais podem aparecer, principalmente durante o aumento progressivo das doses. Náuseas, plenitude, constipação e diarreia estão entre eles.
Quando existe indicação adequada, procuro analisar esses efeitos dentro do conjunto: para muitos pacientes, o benefício metabólico, cardiovascular e relacionado ao peso é muito superior aos efeitos gastrointestinais, que frequentemente podem ser manejados durante o acompanhamento
Diabetes e obesidade fazem parte do mesmo tratamento?
Quando as duas condições estão presentes, separá-las completamente pode levar a uma estratégia incompleta.
A obesidade pode contribuir para resistência à insulina e para a progressão do diabetes tipo 2.
Ao mesmo tempo, existem medicamentos para diabetes que favorecem ganho de peso e outros que ajudam a reduzi-lo.
Uma perda de peso clinicamente significativa pode melhorar:
* glicemia;
* pressão arterial;
* triglicerídeos;
* gordura visceral;
* esteatose hepática;
* mobilidade;
* diferentes componentes do risco cardiovascular.
Por isso, o efeito sobre o peso é uma característica importante quando escolhemos medicamentos para uma pessoa com diabetes tipo 2 e obesidade.
Em alguns casos, tratar adequadamente a obesidade modifica profundamente o próprio diabetes
Para que servem os inibidores de SGLT2?
Os inibidores de SGLT2 aumentam a eliminação de glicose pela urina.
Mas sua importância não se limita à redução glicêmica.
Determinados medicamentos dessa classe demonstraram benefícios relevantes em insuficiência cardíaca e doença renal crônica.
Isso ilustra bem a mudança de raciocínio no tratamento do diabetes.
Uma pessoa com doença renal pode ter uma indicação importante para determinada classe mesmo que sua hemoglobina glicada não esteja dramaticamente elevada.
Quando a insulina se torna necessária?
No diabetes tipo 1, a insulina é indispensável.
No diabetes tipo 2, ela pode ser necessária em situações como:
* hiperglicemia muito importante;
* sintomas catabólicos;
* algumas descompensações agudas;
* determinadas internações;
* situações específicas na gestação;
* progressão da deficiência de insulina ao longo dos anos.
Utilizar insulina não significa que alguém “fracassou” no tratamento.
Em muitas pessoas, o diabetes tipo 2 apresenta progressão da perda de capacidade pancreática de produzir insulina.
Quando necessária, a insulinoterapia é simplesmente o tratamento apropriado para aquela fase.
Começar insulina significa utilizá-la para sempre?
Depende.
No diabetes tipo 1, a necessidade é contínua.
No diabetes tipo 2, alguns pacientes utilizam insulina durante uma fase de descompensação importante e posteriormente conseguem reduzir ou suspender seu uso após melhora da glicemia e introdução de outras estratégias.
Outros precisarão permanecer em insulinoterapia.
Por isso, considero inadequado apresentar a insulina como uma espécie de “último estágio” ou como consequência de falha pessoal.
Glicose baixa demais também pode ser perigosa?
Sim.
Um bom tratamento do diabetes não busca reduzir a glicose a qualquer custo.
A hipoglicemia pode causar:
* tremores;
* sudorese;
* palpitações;
* confusão;
* alterações de comportamento;
* perda de consciência.
Casos graves podem ter consequências importantes.
Alguns medicamentos praticamente não provocam hipoglicemia quando utilizados isoladamente. Outros exigem mais atenção.
O risco é especialmente relevante em idosos, pessoas com doença renal e pacientes em uso de insulina ou de determinados medicamentos que estimulam a secreção de insulina.
Controle adequado também significa evitar hipoglicemia.
Quando o sensor de glicose é útil?
Os monitores contínuos de glicose modificaram profundamente o acompanhamento de muitos pacientes, especialmente daqueles que utilizam insulina.
Eles permitem identificar tendências, detectar hipoglicemias e observar como exercício, alimentação e medicamentos interferem na glicose ao longo do dia.
Em algumas pessoas com diabetes tipo 2 sem insulinoterapia, também podem acrescentar informação.
Mas medir mais não significa necessariamente cuidar melhor.
Quando não existe uma pergunta clínica definida, observar cada pequena variação da glicose pode gerar ansiedade sem produzir uma decisão útil. O valor de um dado depende também do que pretendemos fazer com ele.
Por que o rim precisa ser acompanhado no diabetes?
O diabetes pode provocar doença renal progressiva.
E o comprometimento inicial pode surgir quando a creatinina ainda parece normal.
Por isso, além da função renal, considero importante avaliar quando indicado a relação albumina/creatinina urinária, procurando albuminúria.
Essa informação ajuda a identificar precocemente comprometimento renal e também acrescenta informação sobre risco cardiovascular.
Além disso, função renal e albuminúria podem modificar diretamente a escolha dos medicamentos.
Quanto mais cedo identificamos a alteração, maior a oportunidade de proteger o rim antes que ocorra perda importante de função.
Por que os pés fazem parte da consulta de diabetes?
Neuropatia e doença vascular podem aumentar o risco de feridas, infecções e outras complicações nos pés.
Por isso, a avaliação periódica pode incluir inspeção dos pés e, quando apropriado, avaliação de sensibilidade e circulação.
O próprio paciente também deve aprender a observá-los.
Quando existe redução da sensibilidade, uma lesão pequena pode não produzir dor suficiente para chamar atenção.
E o acompanhamento dos olhos?
A retina também pode ser afetada pelo diabetes.
A retinopatia diabética pode evoluir durante algum tempo sem provocar sintomas.
Por isso, o acompanhamento oftalmológico continua sendo importante mesmo quando a visão está aparentemente normal.
A frequência depende do tipo de diabetes, duração da doença, controle metabólico e achados anteriores.
Não é necessário esperar perder visão para procurar alterações da retina.
Colesterol e pressão arterial também fazem parte do tratamento?
Sim, e em muitos pacientes são tão importantes quanto a glicose.
Às vezes encontro uma preocupação enorme porque a HbA1c passou de 6,8% para 7,1%, enquanto LDL elevado, hipertensão ou tabagismo recebem pouca atenção.
Isso pode deslocar o foco para o problema errado.
O risco cardiovascular no diabetes depende da combinação de vários fatores.
Por isso, o acompanhamento também considera:
* LDL e outras frações lipídicas;
* pressão arterial;
* função renal;
* albuminúria;
* tabagismo;
* peso;
* circunferência abdominal;
* atividade física;
* doença cardiovascular já estabelecida.
Tratar diabetes adequadamente exige uma visão integrada.
Qual é a relação entre diabetes, pré-diabetes e gordura no fígado?
Diabetes tipo 2, pré-diabetes, obesidade e resistência à insulina aparecem frequentemente no mesmo contexto da doença hepática esteatótica metabólica.
Encontrar esteatose em uma ultrassonografia, portanto, não deveria encerrar a avaliação com “é apenas gordura no fígado”.
Precisamos compreender o contexto metabólico e, em pacientes selecionados, avaliar também a possibilidade de doença hepática mais avançada.
Perda de peso, melhora da glicemia e tratamento dos demais fatores metabólicos podem trazer benefícios importantes.
Sono ruim interfere na glicemia?
Pode interferir.
Sono insuficiente e alguns distúrbios do sono podem piorar a sensibilidade à insulina e contribuir para alterações metabólicas.
A apneia obstrutiva do sono é particularmente frequente em pessoas com obesidade e pode coexistir com diabetes tipo 2.
Isso não significa explicar toda glicose elevada pelo sono.
Significa apenas reconhecer que uma avaliação metabólica adequada não se resume a dieta e medicamentos.
E o estresse?
O estresse pode elevar transitoriamente a glicose.
Hormônios envolvidos na resposta ao estresse interferem no metabolismo glicêmico.
Infecções, cirurgias, doenças agudas e internações também podem produzir hiperglicemia, inclusive em pessoas sem diagnóstico prévio de diabetes.
Um resultado obtido nessas circunstâncias precisa ser interpretado com cuidado.
Por outro lado, essa hiperglicemia pode revelar uma predisposição metabólica previamente desconhecida e justificar nova avaliação depois da recuperação.
Corticoides podem provocar hiperglicemia ou diabetes?
Sim.
Glicocorticoides podem elevar significativamente a glicemia, desencadear diabetes em determinadas pessoas ou descompensar um diabetes que anteriormente estava controlado.
Dependendo do tipo de corticoide e do horário de administração, a hiperglicemia pode predominar em determinados momentos do dia.
Quando o corticoide é necessário para tratar outra doença, a solução não é simplesmente suspendê-lo.
O acompanhamento glicêmico e o tratamento precisam ser adaptados à situação.
É necessário eliminar os carboidratos?
Não.
Os carboidratos interferem diretamente na glicose, mas isso não significa que toda pessoa com pré-diabetes ou diabetes precise adotar uma alimentação extremamente restritiva.
Importam a quantidade, a qualidade, a distribuição e o contexto.
Frutas, leguminosas, vegetais, cereais integrais e outros alimentos que contêm carboidratos podem fazer parte de uma alimentação adequada.
Uma dieta que funciona durante poucos dias e depois é abandonada provavelmente será menos útil do que uma estratégia que possa ser mantida por anos.
Quem tem pré-diabetes ou diabetes pode comer frutas?
Sim.
Frutas podem fazer parte da alimentação.
Elas oferecem fibras, vitaminas, minerais e outros componentes nutricionais.
Isso não é equivalente a consumir grandes quantidades de suco, situação em que é mais fácil ingerir rapidamente uma carga maior de carboidratos e se perde parte do efeito da estrutura da fruta inteira sobre a saciedade.
Em vez de transformar alimentos isolados em vilões, prefiro avaliar o padrão alimentar global.
Diabetes é consequência de falta de disciplina?
Não.
O estilo de vida influencia o risco de diabetes tipo 2, mas a doença surge da interação entre genética, ambiente, adiposidade, funcionamento das células beta, idade e outros fatores.
Transformá-la em julgamento moral não melhora o tratamento.
Isso também não significa que mudanças comportamentais sejam irrelevantes.
Alimentação, exercício, perda de peso quando indicada, adesão ao tratamento e abandono do tabagismo podem modificar substancialmente o risco.
O objetivo é transformar essas possibilidades em medidas realistas e sustentáveis.
Como acompanho uma pessoa com pré-diabetes?
A frequência depende da intensidade da alteração e do risco de progressão.
Um pré-diabetes discreto não precisa necessariamente se transformar em uma sequência interminável de exames.
O acompanhamento pode considerar:
* glicemia;
* hemoglobina glicada;
* peso;
* circunferência abdominal;
* pressão arterial;
* colesterol e triglicerídeos;
* evolução das mudanças de estilo de vida;
* outras alterações metabólicas associadas.
Quando existe obesidade, acompanhar peso e composição corporal pode acrescentar informação.
Quando existem outros fatores de risco cardiovascular, eles também precisam ser abordados.
Mais importante do que observar um exame isolado é acompanhar a trajetória metabólica ao longo do tempo
Alterações da glicose e tratamento do diabetes e do pré-diabetes em Florianópolis e Santo Amaro da Imperatriz
Realizo acompanhamento endocrinológico em Florianópolis e Santo Amaro da Imperatriz de pacientes com glicemia alterada, pré-diabetes, diabetes e outras alterações do metabolismo da glicose.
Quando a pessoa chega apenas com um exame alterado, o primeiro passo é estabelecer corretamente o diagnóstico e compreender o contexto em que aquela alteração apareceu.
No pré-diabetes, procuro avaliar o risco de progressão e os fatores que podem estar contribuindo. Peso, gordura visceral, circunferência abdominal, alimentação, atividade física, pressão arterial, colesterol, triglicerídeos e esteatose hepática podem fazer parte da mesma história.
No diabetes, a avaliação se amplia.
Além do controle glicêmico, considero peso e composição corporal, circunferência abdominal, pressão arterial, colesterol, função renal, albuminúria, risco cardiovascular, saúde dos pés, acompanhamento oftalmológico e outras condições associadas.
A escolha do medicamento também não depende apenas de quanto ele consegue reduzir a glicose.
Peso, coração, rins, risco de hipoglicemia, tolerabilidade, custo e qualidade de vida podem mudar completamente a escolha.
Quando diabetes ou pré-diabetes coexistem com obesidade, tratar adequadamente o excesso de peso pode ser uma parte central da estratégia.
Quando existe doença cardiovascular ou renal, a proteção desses órgãos passa a influenciar diretamente o tratamento.
E no pré-diabetes existe uma oportunidade especialmente valiosa: intervir enquanto ainda estamos tentando evitar a progressão para diabetes.
O resultado que buscamos não é um conjunto de exames esteticamente perfeitos.
É reduzir o risco de complicações e diminuir o impacto dessas alterações metabólicas sobre a saúde ao longo dos anos.
Quando vale procurar um endocrinologista por glicose alta, pré-diabetes ou diabetes?
Uma avaliação pode ser particularmente útil em situações como:
* glicemia de jejum elevada;
* hemoglobina glicada alterada;
* diagnóstico de pré-diabetes;
* dúvida se determinado resultado já caracteriza diabetes;
* diagnóstico recente de diabetes;
* dificuldade para atingir as metas glicêmicas;
* episódios de hipoglicemia;
* diabetes associado à obesidade;
* ganho ou perda importante de peso;
* necessidade de revisar medicamentos;
* dúvida ou indicação de medicamentos baseados em incretinas;
* necessidade de insulinoterapia;
* alterações da função renal ou albuminúria;
* associação com colesterol elevado ou hipertensão;
* dúvidas sobre alimentação e exercício;
* necessidade de investigar possíveis complicações.
Para quem acabou de receber um exame alterado, considero útil guardar uma ideia: glicose alta merece atenção, mas precisa ser interpretada no contexto certo. Primeiro definimos qual alteração realmente existe.
Depois procuramos entender os fatores envolvidos.
A partir daí, decidimos quais intervenções fazem sentido para aquela pessoa.
Dr. Tiago Suassuna
Endocrinologista
CRM-SC 29400 | RQE 21653